O evento da Viacom que rolou na última terça-feira (15) deu o que falar e movimentou bastante a base de fãs de diversas produções da Paramount. O estúdio aproveitou a vitrine para soltar o peso pesado: anunciou a chegada de “Star Trek 4”, “Sonic 3” e a segunda temporada de “Halo”. Mas o que realmente chamou a atenção foi a confirmação de que “Um Lugar Silencioso” vai, de fato, virar uma trilogia. John Krasinski — diretor, roteirista e astro dos longas anteriores — cravou que o terceiro filme já está em desenvolvimento, com uma previsão de estreia para 2025, embora ainda sem uma data cravada no calendário.
Para quem está por fora, a premissa da franquia acompanha uma família comendo o pão que o diabo amassou para sobreviver em um mundo pós-apocalíptico dominado por alienígenas. O grande lance é que as criaturas são cegas, mas têm um ouvido absoluto, o que obriga todo mundo a viver em silêncio total. Ainda é um mistério se a terceira sequência vai trazer de volta a velha guarda do elenco original — que conta com o próprio Krasinski, Emily Blunt, Cillian Murphy, Millicent Simmonds e Noah Jupe. Também ficou no ar se o filme ganha um lançamento robusto nos cinemas ou se vai aterrissar direto no colo dos assinantes do Paramount+.
Mas o universo silencioso não para de expandir. O estúdio aproveitou a deixa para mencionar um spin-off que já havia sido ventilado, marcando na agenda o dia 22 de setembro de 2023 para o lançamento. Embora os detalhes da trama ainda estejam guardados a sete chaves, sabemos que o derivado será escrito e dirigido por Michael Sarnoski (conhecido pelo aclamado “Pig”). E se você quer ter uma ideia do que Sarnoski é capaz de fazer com narrativas de sobrevivência e atmosferas opressivas, basta olhar para o seu trabalho com um dos personagens mais clássicos da literatura.
A Desconstrução de um Mito
Durante os séculos em que sua lenda foi sendo moldada, o bandido do século XIII conhecido como Robin Hood já foi praticamente de tudo: de um malandro adorado pelo Rei Henrique VIII a um símbolo da luta contra a desigualdade. Ele foi ladrão, benfeitor, plebeu, lorde, assassino e herói. Na Grande Depressão, Robin era o paladino do povo. No auge do Medo Vermelho, virou uma ameaça comunista; depois, na década de 70, uma raposa sexy em um desenho animado. Mas em “The Death of Robin Hood”, Sarnoski reimagina o herói folclórico como um assassino em massa dormente e traumatizado. O resultado? Uma experiência austeramente monótona, onde o fora da lei consegue ser mais sem graça do que as pilhas de pedras que ele monta para enterrar seus cadáveres. O filme rouba o nosso tempo só para nos devolver melancolia.
Nessa releitura bem frouxa de uma balada de quinhentos anos, Hugh Jackman vive Robin Hood em seus últimos dias. O ator parece ter sujeira milenar incrustada nas rugas. Moído pelas lesões e pela exaustão, tudo o que ele quer é pendurar as chuteiras e sumir. O problema é que os parentes de suas antigas vítimas simplesmente não deixam. Movidos por um senso de dever para com suas linhagens, esses enlutados vingativos — chegando ao ponto de incluir os netos de quem ele matou — continuam caçando o cara, mesmo que o próprio Robin mal se lembre ou dê a mínima para os mortos deles. A vida de Robin virou uma versão de pesadelo daquela festa onde todo rosto desconhecido jura de pé junto que já te viu antes. É até relacionável, tirando a parte em que tentam cortar a sua garganta.
Esse Robin selvagem, amoral e insensível parece ter sido escrito de propósito para subverter absolutamente tudo o que o público moderno gosta nele. Ele não usa verde. Não tem peninha no chapéu. Nunca amou nenhuma Lady Marian. Ele nem sequer saltita por aí numa floresta com um bando de comparsas alegres. Na real, ele começa o filme completamente sozinho no topo de uma montanha estéril. Acompanhando essa vibe desoladora, a trilha imersiva de Jim Ghedi faz com que baladas tradicionais como “Silver Dagger” pareçam se estilhaçar no meio do verso para renascer como hinos fúnebres.
Violência e Estagnação
Filmado na Irlanda do Norte, o longa entrega paisagens gélidas, verdes e formidáveis, ainda que muitas vezes sufocadas por um excesso de neblina. Logo a primeira tomada possui uma grandeza miserável: uma paisagem congelante, frutas petrificadas pelo frio e um vento tão absurdo que quase joga um viajante faminto para longe. Pouco depois, uma visão aérea de um cemitério improvisado capturada pelo diretor de fotografia Pat Scola é de cair o queixo. Fica claro que Sarnoski tem o faro de D.W. Griffith para imagens viscerais. Seu truque favorito aqui é fazer com que a gente crie empatia através do close-up de um personagem vulnerável e desesperado, só para fazer o Robin destroçá-lo brutalmente logo em seguida. Tem até uma cena dele esmagando um coelhinho, e sim, dá pra ouvir o barulho dos ossos.
“Eu roubava e matava pela pura diversão, nada mais”, resmunga Robin para estranhos que teimam em aclamá-lo como o protetor dos fracos. Ao longo dessa jornada sangrenta, ele se reconecta com João Pequeno (Bill Skarsgård) e acaba esbarrando com um leproso (Murray Bartlett), uma garotinha revoltada (Faith Delaney), um jovem traumatizado (vivido justamente por Noah Jupe, estabelecendo uma ponte curiosa com o elenco de Um Lugar Silencioso) e uma freira/enfermeira (Jodie Comer) que, de tão incrivelmente limpa no meio daquela imundície, chega a quebrar a imersão. Ele até visita uma comunidade religiosa e testemunha atos de generosidade real, mas continua apático sobre redenção ou qualquer tipo de crescimento emocional.
No fim das contas, a experiência soa como um rascunho maçante de um filme do Wolverine que o próprio Jackman já fez — e melhor. Em Logan (2017), seu anti-herói mutante também guiava uma criança feroz a caminho da cova. Ultimamente, prefiro ver o Jackman como um showman do que como um selvagem carrancudo (muitos astros sabem fechar a cara, mas poucos sabem sapatear). Ainda assim, ele entrega o visual perfeitamente e tem uma disposição elogiável de se encolher para dentro de si mesmo, mesmo que, após a cena de abertura até que empolgante, o roteiro simplesmente não lhe dê muito o que fazer.
O ritmo de marcha fúnebre do roteiro chega a ser irônico quando percebemos que Sarnoski tentou fazer um filme que fala, em sua essência, sobre a arte de contar histórias. A gente saca isso pela quantidade absurda de monólogos que paralisam a narrativa só para alguém perguntar ao Robin: “Você já ouviu aquela história de fulano?”. E aí o filme estaciona enquanto somos obrigados a ouvir. Resta saber se Sarnoski trará essa mesma mão pesada e reflexiva para o spin-off da Paramount, ou se o silêncio alienígena será um terreno mais fértil do que a frieza de Nottingham.