Morre aos 72 anos, Sebastião Raposa, figura ilustre das ruas de Canindé

Publicado em 02/05/2017 – às 13:50
Parte no bonde da eternidade o legendário Sebastian Fox – Texto: Augusto César Magalhães – Foto: Everton Félix
“Canindé hoje acordou com a fatídica notícia do falecimento de Sebastião Assis
Félix, o Sebastião Raposa, 72 anos, figura folclórica que conheço desde a
minha infância. Há tempos escrevi um texto sobre ele, cujo rascunho
localizei e ora repasso, com alterações e adaptações, como uma espécie
de homenagem aquele homem simples, sem feitos memoráveis, mas sempre
lembrado. O fato ora relatado ocorreu em 1970, antes das férias do meio
do ano, eu tinha 10 anos de idade, mas lembro bem do episódio, cujo
desdobramento se deu exatamente na copa do mundo. Tudo aqui narrado é
verdadeiro, as pessoas da época hão de lembrar.
Em 1970 o
destacamento da polícia militar em Canindé era comandado por uma Major
magricela já de uma certa idade que muito me faz lembrar a descrição que
Euclides da Cunha faz do Coronel Moreira Cesar comandante da terceira
expedição a Canudos, o temível “Treme terra”: “O aspecto reduzia-lhe a fama, de figura diminuta, um tórax desfibrado sob pernas arqueadas em parênteses, era organicamente inapto para carreira que
abraçara…”
Ao que parece, nas corporações essas camaradas desprovidos de compleição física
(que no soldado é a base da coragem) buscam compensar tal deficiência
com arrogância. Assim era o tal Major, sempre cercado pelos seus
comandados prendia, açoitava e causava terror a sociedade.
Uma das brutalidades do Major foi mandar prender o Sebastião Raposa, por pura
arrogância implicando com seus longos cabelos. Passado alguns dias ele
foi solto mas teve os cabelos cortados (dizem que a faca), ficando os
dois lados pelados e uma tira bem cabeluda ao meio da cabeça que ia da
testa a nuca, lembrando um elmo de capacete dos centuriões romanos.
O pior é que o Sebastião foi obrigado a percorrer as ruas Canindé, por
determinação do Major, seguido pelo olhar inquisidor de dois soldados
que ficavam há uns 10m de distância. Por coincidência ele passou em
frente ao Grupo Escolar Monsenhor Tabosa no momento em que terminava
aula, então assistimos aquele espetáculo bizarro e na nossa inocência
ajudamos os populares a vaiar e achincalhar a pobre vítima daquela
selvageria.
O Major que era temido por todos ganhou tanta confiança na valentia que já
percorria as ruas das cidades sem o seu séquito de subordinados, ao que
parece ficou convicto que era um valente de verdade.
Chegou o período da copa do mundo e o Brasil brilhava a cada partida com a melhor
seleção de todos os tempos. Houve uma dia que após mais um partida
vitoriosa os torcedores comemoravam no Bar Canindé nº 1, o ambiente mais
aristocrático da cidade. O Major adentrou ao recinto e um dos que
comemoravam estendeu-lhe a mão respeitosamente e o convidou para tomar
parte naquela comemoração cívica/etílica, já que ele não estava fardado.
O Major
respondeu rispidamente que não pegava em mão de bêbado. O camarada
sentiu-se ultrajado e ao perceber que o Major estava sozinho, largou-lhe
um tabefe na cara que seu óculos voou longe. Ele apanhou o óculos e
partiu indignado dizendo impropérios e foi chamar a polícia. Regressando
em pouco tempo com todos os seus comandados, mas não havia mais
ninguém, até os que não tinham nada a ver com o caso temiam represálias.
Assim, o Sebastião Raposa sentiu o gosto da vingança, ainda que pelas mãos
alheias e o teve motivo de sobras para comemorar a vitória do Brasil .
Já Major metido a valente e a moralista, apanhou na cara e foi
desmoralizado por um camarada que nem era valente e nem tinha essa moral
toda. A história é prodiga em mostrar a punição a que estão sempre
sujeitas pessoas de gestos e atitudes estapafúrdias e grosseiras.
Ide em paz, Bastião. Segura na mão de Deus e vai, na paz da tua consciência.”

Canindé Online

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